Thursday, November 26, 2020

cansaço

 Estou cansada do interesse e desinteresse. 

As pessoas estão cada vez mais desligadas e se estão ligadas, sinto-as com um egoísmo enorme. Tenho saudades da partilha, de estar, da intimidade. 

Não existe um manual de como lidar com a personalidade e bagagem dos outros mas o que é certo é que eu própria aprendi a conviver com o peso todo em cima e ainda assim, conseguir respirar.

Uma pessoa nunca consegue ser resolvida a 100% mas pode ao menos tentar ultrapassar certas coisas. O desapego é algo desumano. 

Este vírus veio precisamente reforçar que a interacção com outros indivíduos é fundamental para manter o equilibrio. No entanto, o medo traz um afastamento brutal e eu estou aqui de coração apertado a tentar manter-me à tona deste pântano.

Wednesday, November 4, 2020

nevoeiro

O futuro está completamente incerto e mais que nunca, cheio de obstáculos. 

Espero conseguir ter resiliência para aguentar os próximos meses. Neste momento não consigo ser optimista nem ser aquela pessoa cheia de energia que leva tudo à frente. Sinto-me cansada e desiludida.

Thursday, October 15, 2020

apneia

Tenho pensado todos os dias em escrever aqui mas o tempo passa a correr e este ano parece estar a correr à velocidade da luz.

Cada dia que passa, mais me apercebo que estamos a viver um filme de ficção ciêntífica, daqueles que nos faz pensar - porra, ainda bem que isto é só um filme e que é completamente utópico. Não podia estar mais errada. O ser humano é de facto um animal de rituais e de círculos viciosos que, inevitávelmente volta a cair sempre na mesma ratoeira vezes sem conta. 

Neste dia voltamos ao estado de calamidade imposto pelo Estado. Os números de casos infectados estão estupidamente altos. Era inevitável haver implementação de medidas. O país não vai fechar nem parar, é incomportável mas vemos mais uma vez a nossa pseudo liberdade a ser castrada lentamente. 

A cultura está pela rua da amargura. Um sector esquecido na miséria. A mim custa-me horrores não poder ter os meus concertos. Não poder estar numa sala de espectáculos apinhada, a suar e a vibrar com milhares de pessoas à minha volta. Como já disse umas centenas de vezes, estou a viver uma vida que nunca aspirei ter. Nunca tive tanto tempo em casa. Nunca tive tanto tempo parada.

No outro dia conversava com a Andreia e ela dizia que temos de viver o agora porque o passado e o antes, já era e nada será igual. Não podemos ser ingénuos ao ponto de pensar que vai haver um pós pandemia. Este virus irá estar connosco para sempre, então, não vale a pena pensar que amanhã será melhor e dizer "já passou" porque não vai passar. É triste pensar assim mas mais vale ser realista do que viver no engano. Dói menos? Não. É o que há.

A minha vida levou mais uma vez um belo pontapé. Vi-me obrigada a desistir do projecto que me era muito querido mas era impossível continuar. De Março até Setembro, foram meses muito duros. Curiosamente estou muito mais calma e tranquila.

O lado positivo é que este ano estou a conseguir aproveitar ao máximo o sol, a praia, a natureza, o parar, o sentir, os amigos, simplesmente eu. Em Agosto conheci uma pessoa nova que, apesar de estar a 300km de distância, me tem feito bem e feito sentir algo bom.

Este ano iria passar o meu aniversário longe. Já que não é possível estar com todas as pessoas que quero, não iria estar com ninguém. Mas até este plano foi ontem cancelado e deparo-me com a velha guarda "o que fazer nos anos?". Sei que não me quero preocupar nem chatear com nada, por isso queria estar distante destas coisas todas. 

Ambiciono tanta coisa mas parece que no fundo acabo por não ambicionar nada. Preciso urgentemente de dar a volta, de seguir em frente, de ultrapassar. Bem sei que é um processo e que nada que implica mudança (para melhor) pode ser repentino, porque para o pior, isso sim é num piscar de olhos. A vida é um instante e se não tivermos os pés bem assentes no chão, corremos o risco de ser levados pela corrente.

Sinto que o mundo está cada vez mais ignorante e intolerante. Quero ter a esperança que possamos aprender alguma coisa com esta experiência louca. Será?

Thursday, July 23, 2020

desconfinar

Costumo contar os dias desde o início desta loucura, quando ligo o Mac e ele me informa que há cento e tal dias que não faço backup. Sei que existem cerca de 2/3 dias de diferença entre o dia 16 de Março, data real em que comecei o confinamento, e a data em que fiz o backup do disco.
É surreal pensar que já estamos a chegar a Agosto. Entretanto, já alguma coisa de diferente aconteceu na minha vida. Desconfinei dia 20 de Junho. Já não aguentava mais e, com algum forcing da Margarida, lá saí de casa e fui finalmente ao Crow's. Muita gente, estava muito ansiosa. Acabei por ficar para jantar e acabou por ser uma noite completamente inesperada. Foi bom sentir um ar de liberdade.
No início deste mês, fiz férias com os meus pais. Há pelo menos 20 anos que nao fazíamos férias os 3. Foi bom. Foi uma semana de natureza, rio e muita introspecção. 
A minha situação profissional tornou-se pior. Não sei bem como será depois de Outubro.
Neste momento vivo uma intermitência de vida.Os cuidados são muitos mas honestamente já estou por tudo. É super injusto ter de levar novamente com uma enorme cacetada. Vejo-me novamente dependente dos meus pais. 
Entre crises e recessões e eu sei lá, 2020 é o ano do virus que veio parar o mundo.
Neste momento tento aproveitar dias de sol e é a única coisa que me dá alento para seguir em frente num futuro muito turvo.

Friday, June 12, 2020

avesso

Há algum tenpo que estava para escrever. Queria esperar pelo dia de amanhã pois faz 90 dias que pelo menos para mim, o mundo parou, a minha vida parou e mudou. Neste momento tenho uma vida que nunca quis ter, uma vida aborrecida onde não saio de casa, não tenho vida social, não tenho concertos, não tenho festas, não tenho jantares, nem noitadas. O meu quotidiano agora é trabalhar na varanda do quarto e quando acabo, vou para o sofá da sala. Volta e meia dou um passeio e é basicamente isto. Sinto-me dormente, desmotivada e desanimada. Não estou com ninguém, pouco falo com pessoas. Muita gente já voltou a uma normalidade, eu ainda não tive coragem para ir beber um copo ao Crow's. Recebi o primeiro abraço no Domingo passado no funeral do pai da Inês. Descompensei muito, aquele abraço inesperado deixou-me em lágrimas. Disse ontem à Andreia que, se fosse para a minha vida ser assim nesta condição, preferia morrer. Para quê viver sem poder realmente viver? Não estou com tendências suicidas mas estou a desesperar por um normal a que estava habituada. O que é certo é que o mundo está de pernas para o ar e aminha vida do avesso.

Thursday, May 14, 2020

sessenta

Só agora ao final do dia é que me caiu a ficha que já estou há 60 dias em casa, sozinha. Agora percebo esta ansiedade toda e esta inquetação.

Wednesday, May 6, 2020

adaptações

Na segunda feira dia 4 de Maio, nos meus 50 dias em casa, foi levantado o estado de emergência em Portugal. Estamos agora em Estado de Calamidade. O nome soa bem pior mas supostamente as medidas estão a ficar mais leves. Pequenos comércios e lojas a abrir etc. Não me sinto nada segura de voltar a um normal porque o vírus ainda aqui está e ainda mata. Nada será igual ao dantes. É surreal termos de andar de máscara, parece que estamos a ver um filme apocalíplico... Desde 30 de Abril, dia em que fui ao estúdio buscar o computador, monitor e a minha tralha, que trabalho em casa oficialmente. Tenho aqui o meu escritório montado na varanda do quarto, está catita. Ao menos tenho vista desafogada para a Serra. No estúdio anterior não tinha vista para lado nenhum sequer. Agora organizo o meu tempo da melhor forma. O futuro, esse continua muito incerto. Com fronteiras fechadas e proibições de eventos, não vejo nada a acontecer este ano. Tento não pensar muito...